A Imposição de um Deus branco na Umbanda como ferramenta de extermínio preto
A concepção de um deus onipotente e universal, nos moldes do cristianismo, é estranha às cosmogonias que formam a Umbanda. A insistência em um sincretismo que posiciona o deus católico no topo da hierarquia espiritual umbandista representa um processo de embranquecimento que visa apagar as raízes africanas e indígenas dessa religião. Intelectuais como Luiz Antônio Simas ressaltam a pluralidade da Umbanda, uma manifestação do sagrado que nasce do encontro de diferentes saberes, e não da imposição de uma única verdade.
Essa tentativa de "cristianizar" a Umbanda é uma forma de apropriação cultural, como denuncia Djamila Ribeiro, que esvazia de sentido as práticas e crenças afro-brasileiras. Ao substituir a complexidade de Olorum e a imanência dos Orixás por uma figura divina eurocêntrica, nega-se a própria filosofia que estrutura essas religiões. Nas palavras de Suely Carneiro, esse processo se configura como um "epistemicídio", a morte programada dos saberes de um povo como estratégia de dominação.
O epistemicídio, como discutido por Suely Carneiro no programa "Mano a Mano", é a base para o genocídio da população negra. Ao aniquilar a cultura e a religiosidade de um povo, destrói-se sua identidade e sua força coletiva. A ideia de um deus único e vingativo, que demoniza as entidades da Umbanda, serviu como justificativa para a perseguição, a escravização e o extermínio.
A Umbanda que se curva ao deus cristão, portanto, colabora com esse projeto de morte. A verdadeira prática umbandista, em sua essência, é um ato de resistência que celebra a diversidade de forças da natureza e a ancestralidade, como nos ensinam os povos originários e as matrizes africanas, vozes que, como a de Célia Xakriabá no "Mano a Mano", nos lembram que a nossa espiritualidade está na terra, no corpo e na coletividade, e não em um deus distante e colonizador.




