Nem tudo é macumba
Espiritualizar tudo é como viver em campo de batalha
Na caminhada da vida, especialmente para quem pisa no chão de terreiro, existe uma tentação constante: a de pendurar na conta do ancestral tudo que acontece de ruim consigo. Foi demitido, o relacionamento que não avançou, o dinheiro que falta. A primeira resposta é quase automática: “Fizeram macumba pra mim”.
Às vezes, fizeram. Mas, na maioria das vezes, o que nos derruba não é um feitiço. É o sistema e como fugimos da responsabilidades das consequências das nossas escolhas.
Nesse ponto, Mano Brown é mais preciso do que muito “pai de santo”. Quando ele narra o “Sobrevivendo no inferno” da periferia, ele não está falando de Exu Tiriri trancando a carteira de trabalho de alguém. Ele está falando de racismo estrutural, de falta de oportunidade, de um sistema econômico desenhado para moer quem está na base: eu, você e 99% da população.
Culpar a “macumba” por uma demissão em um país com a economia instável há pelo menos 15 anos é tirar o peso da realidade. É mais fácil se ver como vítima de um inimigo oculto do que como peça em um jogo que, muitas vezes, já está marcado.
A partir disso, quero tentar ver o outro lado do copo. O mestre Luís Antônio Simas fala brilhantemente sobre o “encantamento da vida”. Para ele, a macumba (termo que ele reivindica com orgulho e que eu concordo) não é só a “demanda”, mas é a percepção do sagrado no cotidiano: na cerveja com os amigos, no samba, na esquina. A encruzilhada não é só um lugar de despacho; é, como ensina Simas, o lugar do encontro, da possibilidade, onde o visível e o invisível se tocam.
Se tudo é um ataque espiritual, a vida vira um campo de batalha paranoico. A Quimbanda, na sua essência não é uma muleta para explicar o fracasso. É uma ferramenta de potência.
Exu não te impede de ser demitido. Exu te dá a inteligência para sobreviver ao desemprego, a malandragem para encontrar outro caminho, o dinamismo para não ficar parado. Pombagira não te força a ficar em um relacionamento falido; ela te dá o amor-próprio e a clareza para entender se aquele ciclo acabou.
Portanto, nem tudo é pra ser espiritualizado. Às vezes, as coisas só dão errado mesmo. Achar que tudo de ruim que acontece é feitiço é ter preguiça de analisar a própria realidade. A verdadeira Quimbanda, a verdadeira macumba, não nos dá força para ignorar o mundo, mas para encará-lo de frente, com seus problemas reais e, apesar deles, com seus pequenos encanto.
E eu termino com o que sempre @mestre_matuan fala: Exú e Pombogira vão te mostrar o caminho, mas você precisa caminhar.




