O terreiro precisa voltar a ser um espaço democrático.
Axé não se compra: uma reflexão sobre à "venda da fé" e à "Quimbanda Faria-Limer".
O Terreiro não é o seu escritório. Ao cruzar a porteira do terreiro, seu crachá de “Doutor” ou “Gerente” cai no chão. Na quimbanda, seu currículo é medido em suor, dedicação e respeito aos seus ancestrais e aos de todos da casa. Exu não quer seu bônus de final de ano; quer ver se você varre o chão da casa dele com a mesma vontade que assina contratos. Vemos uma onda de “quimbanda-faria-limers” tentando transformar o terreiro em clube de negócios. Chegam achando que compraram favores dos Exus como um camarote VIP. Tratam a ancestralidade como produto, a iniciação como MBA e o sacerdote como CEO.
Spoiler: não funciona.
O axé não vem no cartão de crédito, e Pombagira não se impressiona com sua fatura. O terreiro é uma base espiritual. Lá fora você pode ser grande, aqui dentro, todos começam com o mesmo peso: a própria cabeça.
A força vem da disciplina de firmar uma vela, cantar um cantiga com força, ouvir os mais velhos e zelar pela comunidade. O filho que cuida do assentamento após dia exaustivo constrói mais músculo espiritual que o *faria-limer* que aparece mensalmente querendo resolver tudo com despacho luxuoso. E se há quem queira comprar, há gente que se aproveita para vender. São os marketeiros. Falam o que você quer ouvir, diz que você é “filho/a” de maioral ou Rainha Maria Padilha das 7 Encruzilhadas. Quanto poder, não? Para os marmoteiros, você é muito especial, afinal, vc tem grana.
Mas isso não é e nem pode ser quimbanda.
A quimbanda é visceral, no chão, pé no barro. Exige entrega genuína, não é parque temático de magias. Quando o terreiro vira palco de vaidades, perde sentido. A hierarquia deve ser forjada no tempo, conhecimento e respeito. O mais velho apenas caminhou mais. Você também chegará lá se tiver paciência e força.
Um terreiro democrático é onde advogado e porteiro são irmãos, diferenciados apenas por dedicação. Onde cada voz é ouvida e cada trabalho é fundamental. Onde o poder de Exu se manifesta na coletividade, não no brilho individual. Se seu status te dá privilégios, desconfie. Se prometem dinheiro, corra. A verdadeira Quimbanda não vende lugar ao sol; entrega uma pá e ensina a cavar seu caminho. Essa caminhada não tem atalhos, não tem Uber, não aceita PIX. É na sola do pé, com humildade e muita menga pelo corpo.




