Pombogira - O feminino indomável na Quimbanda
Pra entender de verdade quem é a Pombagira, precisamos parar com o olhar cheio de moralismo que enxerga a mulher forte como “pecado” ou “excesso”. A Quimbanda não é religião pra quem quer conforto — é pra quem encara a vida de frente. E a Pombagira está na linha de frente dessa luta contra tudo que tenta nos prender, por dentro e por fora.
Tentam há muito tempo “amansar” o sagrado afro-brasileiro. Assim como tentaram deixar a Umbanda mais “branquinha”, colocando um Deus europeu no centro, hoje tentam transformar a Pombagira numa figura bonitinha, vendável, que caiba nas regrinhas da moral ou do mercado da fé. Mas ela não aceita rótulo de “mulher boazinha, do lar”. Ela é rua, é encruzilhada, é a mulher que sobreviveu na margem e fez dela o seu trono.
Muito além do vestido vermelho
Tem gente que só procura a Pombagira pra fazer amarração ou pelo visual chamativo. Mas ela é muito mais que isso. Veja, por exemplo, Pombagira 7 Buracos. Ela não está ali para seduzir — ela é uma força que atua em vários reinos: Terra, Almas, Matas, Trevas e Encruzilhadas.
Ela não vem pra agradar vaidade. Vem pra curar feridas profundas, tanto do corpo quanto do espírito. Reduzir essa entidade a uma imagem sensual é reduzir tudo que ela representa. Ela mexe com mistérios que tão enterrados dentro de cada um de nós.
Liberdade que não se vende
Quando a gente fala de liberdade, é impossível não lembrar da Pombagira Cigana. Muita gente romantiza, mas a verdade é que o povo cigano, assim como o povo preto, foi perseguido, escravizado e quase apagado da história.
Quando uma Pombagira Cigana chega no terreiro, ela não dança somente pra encantar. Ela dança pra mostrar que ocupa espaço, que tem poder, que ninguém manda nela. Ela é a mulher que não se prende, que não aceita migalha, que conhece os caminhos e os segredos da vida. Ela ensina que liberdade não se negocia. Diferente da mulher “presa em casa”, ela é dona da rua, do comércio, da troca, e usa a sedução como arma de poder — não de submissão.
Terreiro é lugar de luta
Domesticar a imagem da Pombagira tem um objetivo: tirar o poder político da Quimbanda. Num país onde mais da metade da população é preta ou parda, mas continua sendo a que mais sofre com pobreza e violência, a mulher negra é quem mais apanha do sistema. É ela que tá na base da pirâmide, lidando com feminicídio, desemprego e invisibilidade.
Chamar pela Pombagira é chamar por essas ancestrais que nunca puderam ser frágeis. É aceitar que o feminino pode ser perigoso, livre e soberano. Nas encruzilhadas da vida, onde tudo pode mudar, é ela quem decide. Ela não pede licença — ela abre caminho.




